Conto inédito: Namorado
Este é um conto inédito que fará parte da seleção de histórias que vão integrar o meu segundo livro de contos. O primeiro ainda está disponível em http://www.livrariascuritiba.com.br/contosdeterraque@sautgauchos,product,LV206962,3396.aspx. "Namorado" foi premiado há um mês com a 1ª Menção Honrosa no concurso literário da prefeitura paulistana Cleber Onias Guimarães. Namorado Era o almoço de apresentação do namorado. O destino, ou o livre-arbítrio, quis que fosse um peixe namorado. Cortaram o animal aquático em fatias: a primeira do namorado foi para... o namorado. Que se engasgou com a coincidência. Parecia grave, e todos tiveram que acudi-lo. Começando, é claro, pela namorada. Que tinha por ele amor, líquido como o peixe, nada. Mas o irmão da namorada também deu um belo tabefe nas costas do namorado. Pai e mãe se detiveram ao setor de enfermagem. E o namorado conseguiu cuspir aquilo que o afligia: uma moeda. De quatro centavos. Incrustada no meio do peixe namorado. Surpresa em diferentes linhas de pensamento se fez entre os cinco à mesa (excetuando-se o namorado cuja surpresa tinha por característica principal não estar pensando nada) e para a aparição daquele cifrão surgiram hipóteses, embora não para seu valor monetário. A explicação que o pai, sempre o sabe-tudo, achou, foi a seguinte: alguém jogou uma moeda num poço dos desejos, daqueles que ficam mais lotados que cofres de porquinho (animal terrestre que houvera sido preterido no almoço pela mãe) e há quem pense em mergulhar para dar adeus à penúria; poço este que era bastante fundo e tinha um vazamento que se fosse numa represa seria tapado por um polegar, e atraiu aquela riqueza discóide em especial; a qual, então, conduzida por uma corrente submarina, viria a alcançar o vasto oceano, onde foi engolida por um peixe namorado exercitando seu livre arbítrio, ou mesmo por força do destino; o qual, após uma vida excelente para os padrões de um peixe, na qual escapou de tipos diversos sólidos e líquidos do que considerava poluidores marítimos e ameaças bem mais injustificáveis que seus colegas predadores, e se enamorou e foi pai de uma família de peixes feliz e bem integrada aos mares ora tempestuosos ora tranqüilos, mesmo considerando uma ligeira e incômoda úlcera com a qual convivera nos seus últimos meses vivo, advinda de um almoço não corriqueiro que realizara, acabou por cair na rede de um pescador chamado Henrique Manoel; que o passou diretamente à mãe da namorada (aqui não havia intermediários). Mas, sabe-se lá. Não havia como comprovar a tese, poder-se-ia até questionar Seu Manoel no outro dia, mas não passaria daí; e essa vantagem constitutiva da explicação do pai, assim como outros fatores como sua posição de pai, podem justificar a sua vitória por aclamação e o assunto morrendo consequentemente. O fato é que a moeda agora estava no chão da cozinha, onde se dava o importante almoço. E, com as atenções voltadas para si, o que foi constatado é que era uma moeda raríssima, datada de muitos e muitos anos atrás, do tempo em que ainda existiam moedas com o valor quadrado dos membros daquela família antes do “almoço de apresentação do namorado mais rentável da História”, como o episódio ficou depois conhecido. Porque com a ajuda de um exímio, mas obscuro avalista numismático, que o irmão da namorada contatou na internet pelo nickname de Mr. Henry, encontraram um ainda mais obscuro colecionador disposto a adquirir a moeda pelo que ela valia. Bilhões de centavos. Ninguém se expôs ao risco de comer as fatias restantes do peixe naquele dia e descobrir o que trariam. Mas, da venda da moeda que, se não era quadrada, tinha um valor quadrado, lá no seu tempo de origem, todos saíram com fatias milionárias. Inclusive o pescador que manteve seus hábitos simples de estudar moedas antigas nas horas vagas. O namorado, que antes era alvo de desconfiança, foi imediatamente agregado ao círculo familiar. Os namorados de todo o mundo continuaram, entretanto, pelos mares e praias da vida, enfrentando refeições nas quais estavam sujeitos a engasgar.
Escrito por Cristiano Hoppe Navarro às 00h50
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Reportagem sobre oficinas de teatro em Brasília
Reportagem que escrevi para o Correio Braziliense conta de três oficinas abertas à atores iniciantes em Brasília neste ano de 2010 que está terminando. Participei como ator em todas as três e consequentemente estive no palco em oito ocasiões em 2010 além dos inúmeros ensaios, ano frutífero para mim nas Artes Cênicas em que também comecei a cursar a faculdade homônima na UnB. Uma das frases trata exclusivamente de uma experiência vivida por mim - descubra qual. Os oficineiros: no palco pela primeira vez Legionários da Capital, Teatro Oficina e Teatro do Concreto são alguns grupos que em 2010 em Brasília abriram oficinas que deram a atores iniciantes a chance de participar em peças Uma turba de atores iniciantes, a maioria sem nunca ter pisado profissionalmente em um palco, aguarda pacientemente a deixa na música da conhecida banda brasiliense Legião Urbana. Quando o cover de Renato Russo entoa “Que país é esse...” os neófitos, espalhados entre a plateia e disfarçados de espectadores, tiram rapidamente a camisa que vestiam por cima do traje preto da 42nd Street Band e correm desvairadamente para o palco. Num átimo, estão pulando e dançando feito loucos naquilo que é pra ser um “revival” do famoso show de 1988 em que o vocalista brigou com sua audiência e foi quase estrangulado por um fã, cena que se repete momentos depois no ato final da peça da trupe teatral Legionários da Capital. As apresentações, que mesclam histórias musicadas pela banda e tiveram temporada de abril a setembro, só foram possíveis devido à estratégia da diretora e atriz Luana Proença. “Foi comprovado que tínhamos um elenco de apoio, pessoas envolvidas no processo e que faziam muita diferença em cena, arregalando os olhos da platéia com a entrada explosiva e com o fato de serem pessoas da comunidade; como era uma galera preparada, pudemos ampliar os efeitos cênicos com câmera lenta, estátua e energia de um pessoal jovem e comprometido”, diz a brasiliense, cuja intenção era falar da cidade por pessoas daqui. “Despertamos uma identificação do público, com uma representação direta, a platéia estava em cena”, completa ela, que neste final de ano dirigiu dois musicais, Butiquim do Noel e AmoreZ, com a mesma metodologia de colocar no palco iniciantes, produzidos por suas turmas na oficina No Ato. O artifício, de se abrir para a participação do publico em geral, tem se mostrado cada vez mais comum no teatro de Brasília, com objetivos diversos, como trazer pessoas engajadas, não arcar com custos de cachê, oxigenar as peças com novas perspectivas e propiciar ao público uma experiência mais natural, envolvente e que projete os espectadores na cena, à medida que entram no palco não-atores e membros da comunidade. Para o espetáculo de rua “Bacantes e Brincantes”, por exemplo, o grupo ceilandense Hierofante abriu oficina, que terminou com a escolha de duas atrizes para integrar a peça. “Desde que é um grupo com uma história de mais de dez anos, foi um presente ter sido confiada para o papel de atriz”, disse Jéssica Cardoso. Em maio, a Esplanada dos Ministérios recebeu a turnê do grupo paulistano Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, do diretor Zé Celso Martinez Corrêa, em uma arena montada no gramado entre os prédios do governo. "Taniko", "Cacilda!!", "As Bacantes" e "O Banquete" foram encenados durante quatro dias seguidos, mas duas semanas antes um grupo de estudantes de teatro e interessados já participava da oficina diária na Faculdade Dulcina de Moraes. Nos ensaios e nas peças, foram convidados e até mesmo levados a fazer parte das encenações. Um deles, que observava atento em um ensaio às incursões das bacantes sobre Dionísio, foi trazido ao palco por uma delas e teve sua roupa arrancada pelas demais, permanecendo totalmente nu em cena, exceto por uma máscara de touro posta em sua cabeça. Na metade de outubro, saiu o resultado da oficina de outro grupo, o Teatro do Concreto, que há sete anos se dedica a estudar as possíveis interações cênicas com a arquitetura local, em três cenas consecutivas – uma de cada grupo formado nas oficinas na Funarte. Trinta alunos ocuparam diariamente o teatro por 45 dias, em uma série de encontros que seguiram os procedimentos do processo colaborativo – metodologia de criação baseada na autonomia e diálogo entre as funções cênicas (diretor, ator, dramaturgo, cenógrafo e figurinista, iluminador e sonoplasta), com “hierarquia de funções flutuante”, segundo Micheli Santini. “Muitas vezes ainda trabalhamos sob a perspectiva da espera pelo outro e não percebemos que a nossa criação também é importante e é fundante para a efetivação do discurso”, disse ela, que foi oficineira de atuação junto com José Regino. “Quando essa ‘ficha’ cai, o engajamento acontece”. Nem tanto participar especificamente nos dez minutos culminantes, como nos Legionários, ou interagir quase que livremente em determinados momentos, à la Uzyna Uzona, a proposta do Teatro do Concreto foi criar uma encenação do zero a partir das vivências pessoais. Tudo partiu da pergunta que motivou depoimentos individuais e a construção das cenas: "De suas histórias tristes, qual é a mais bela?" - como se para superar a pedra no meio do caminho uma saída fosse transformá-la em arte. “Desde o princípio foi uma experiência marcante, pois reunir 30 pessoas que na sua maioria não se conhecem e que comecem abrindo seu baú de memórias e seu coração para o outro, para o novo, o desconhecido, já foi bastante estimulante para todos”, conta Micheli. Revelando uma tendência no teatro da capital, as experiências dos vários grupos já criaram a categoria dos oficineiros. Nobuyuki Kahi, que começou Artes Cênicas na UnB em outubro, conta que formou uma turma de amigos que se encontrava sempre nas oficinas, inclusive devido à greve que atrasou o início das aulas na universidade e conduziu a elas as mesmas pessoas. Estímulo para que resolvesse dedicar-se a seu segundo curso universitário, as três oficinas foram para o estudante oportunidade de conhecer um “trabalho de referência” e “que fez história no teatro”, no caso do Uzyna Uzona, e chance para uma experiência “intensa” onde “havia muita liberdade para criar”, no Teatro do Concreto. Além, claro, de ter sido o responsável por reviver o ataque ao músico que, na adolescência e sob o nome de Renato Manfredini Jr., imaginou a 42nd Street Band – e depois realizou seu sonho na Legião Urbana. Mesmo aqueles que já são estudantes de Artes Cênicas ou atores profissionais, tem se interessado em participar das oficinas, pela oportunidade de intercâmbio, conhecendo e trabalhando com grupos de teatro diferentes que atuam em Brasília. Assim, mesmo para os que não estrearão no palco, a sensação é de primeira vez.
Escrito por Cristiano Hoppe Navarro às 00h40
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Q
Texto escrito em inspiração à questões suscitadas pela oficina de teatro da qual estou participando ("Encontros Concretos", apresentação dia 17 na Funarte, em Brasília), entre as quais: "Porque o carnaval é claustrofóbico?", "O quê?" e "Para quê?". Q Eu dormi no ontem querendo acordar no amanhã, mas acordei no hoje. Um dia deveria ser sempre uma progressão do anterior, é a linha do tempo, a seta do calendário que antes de qualquer coisa Robinson Crusoé tratou de estabelecer na sua ilha deserta. Mas no Carnaval todos os dias se fazem iguais e o presente fica tão presente que o passado e o futuro deixam de existir. É Nietzsche e o eterno retorno, tudo se repete infinitamente. Uma multidão de presentes sem ontem ou amanhã: será isso que o faz claustrofóbico? Já se disse: o presente é nosso presente, um presente tão óbvio que chega a ser arredio, porém mais tangível do que o embrulho de presente do passado e o vale-presente do futuro. Mas agora eu penso: será que o presente é mesmo tangível se não houver o ontem, o amanhã? Será que ele não deixa de ser presente pra ser perpétua imanência, infindável repetição desmemoriada e desprovida de desejos e sonhos? Existe o brilho eterno da mente sem lembranças, ou que pelo menos não julga, rotula, pré-concebe baseada nos instantâneos fotográficos que já se foram? O futuro cria os “pra quês”. Mas os “o quês” estão no presente. Que é onde estamos presos, queiramos ou não. A única maneira de fugir a isso é alcançar a luz – um possível eufemismo para morrer. Mas eu acredito que nessa instância não existem mais “pra quês” e “o quês”. E eu gosto dessas perguntas: “o quê?”, “pra quê?”, “como?”, “quem?”, “onde?”, “porquê?” e até mesmo “quando?”. A resposta para a última é sempre agora: mas esse agora agrega as demais perguntas. É só por causa dele que as outras questões existem. Porque hoje existe, e o melhor: ele está cheio de outros “hoje”, de outros “quem”. Sim, pode ser que o inferno são os outros, mas é igualmente verdade que tudo de que precisamos é uns dos outros. Assim, o Carnaval intensifica o hoje até um patamar onde todas as demais ilusões de tempo deixam de existir. Se um objetivo é um fim, e a morte é o fim dos fins, um antídoto para a morte é a subjetividade. Nós vamos morrer, isso é absoluta certeza, mas não sabemos quando, isso é absoluta incerteza. Sem dívida com Golias ou Davi, apenas a dádiva da vida, feita de vadias ora divas e divas ora vadias: comemoramos as rimas nem um pouco parnasianas do Carnaval. Ele nos desaparece com essa sombra futura da morte, porque nos traz ao encontro da maior prova de que estamos vivos: outros seres vivos. Compartilho, logo existo. Eu quero ser humano. Máquinas trabalham com a certeza ou incerteza, que é o zero ou o um, seres humanos têm infinitos matizes internos – 0,11; 0,42; 0,88 – e externos, ao compartilharem com seus semelhantes – 2; 4; 7 bilhões. A essa diversidade às vezes ambígua, às vezes transcendente, podemos chamar subjetividade. A morte pode ser inercial, em se tratando de nos prender numa esfera onde não há vida. Mas o Carnaval também pode tornar-se prisão se nos dirigirmos para outro extremo, aquele da passionalidade elevada à última potência, que nos faria animais. Somos animais, mas não deste tipo, somos animais racionais e conscientes. Assim, se a vida fosse um eterno Carnaval, seríamos apenas “o quê?” sem “pra quês?”. Certamente que abdicar dos “o quês” é renunciar ao que nós somos. O que nós somos? À primeira vista, nós somos corpo, carne. Assim, Carnaval, a festa da carne, festeja o que somos. Mas não somos apenas corpo, somos mente, e quem sabe alma e coração. Assim como a ausência de “o quê” é a ausência do presente e de vida, a ausência do “pra quê” é ausência do futuro que faz do presente a dádiva que é – significando talvez que o sol não nasceria sempre subjetivamente diferente a cada manhã, e que novas águas não correriam a cada instante no mesmo rio. As diferenças subjetivas fazem nossa beleza, se não seríamos todos objetivamente iguais: boca, olhos, pernas, braços, sexo. Cada voz ecoa diferente, mas se ela não ecoa, é porque se está preso. Preso, no mais fundo poço da solidão, no mais insensível féretro, na mais redundante estagnação. Preso, no maior distanciamento objetivo de estatura que nos deixa ainda assim nas mesmas coordenadas nos proporcionado por uma escada que serpenteia da incerteza à certeza ou em um fosso de elevador num arranha-céu, na mais abjeta ilusão participante que nos concede a visão do mirante no topo deste edifício hipotético. Isto, isso pode ser claustrofóbico. O quê? Pra quê? Nem máquina nem animal, nem pra ter nem pra parecer humano, ser. Sê-lo no presente que muda a cada microinstante, e por isso não nos prende, nos liberta. Eis aí não uma questão, mas uma possibilidade de saída diante de duas tremendas indagações. A saída que engendra a letra quê presente em ambas, no seu formato Q, onde para o círculo infinito que dá voltas e mais voltas existe um escape, uma porta que se abre para o novo.
Escrito por Cristiano Hoppe Navarro às 23h05
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Comercial de cerveja
Se fosse um nome de companhia aérea, seria ASACÉU. Mas é um nome pra cerveja cujo comercial segue, o que você sugere? Comercial que, pasmem, não conta com mulheres em trajes mínimos, discussão no boteco, praia ou futebol. ã Cristiano Hoppe Navarro Comercial de cerveja Egito Antigo, 2500 a.C. - Passando bloco! – berra um trabalhador. Meia dúzia de homens agarra o bloco e o transportam para cima na construção da Grande Pirâmide. Uma brisa quente e desértica perpassa o ambiente. - Bloco acima! – o grupo passa o pedregulho lapidado para um novo grupo mais acima e assim por diante, até chegar ao topo. Ao alcançá-lo, a Pirâmide está completa, e os trabalhadores batem palmas em uníssono, celebrando o feito. No nível do chão, um camelo se aproxima sozinho com um carregamento na corcova: vasilhames com suco de cevada [ou garrafas de cerveja]. Os trabalhadores que ali estão pegam uma cerveja para si cada um. Enquanto isso, cada trabalhador passa outra cerveja adiante para os colegas mais acima na Pirâmide. - Passando cerveja! [também pode ser dito “Passando ‘cerveja X’”]. Tomada aberta mostra o compartilhamento de cerveja de mão em mão até chegar ao cume da Pirâmide. Ao chegar ao topo, o último trabalhador a receber sua cerveja é o que está mais acima na Pirâmide. A câmera se aproxima dele lentamente, focando um close na cerveja, que é depositada em solitário equilíbrio exatamente no topo da Pirâmide. A câmera gira em 360 graus em torno da cerveja, mostrando todo o panorama desértico ao fundo [possivelmente com outras pirâmides ao redor] e a própria Pirâmide. [No fim, possivelmente uma voz apresenta um slogan com um sentido parecido a este: ‘Cerveja X’, tradição milenar que refresca até no deserto].
Escrito por Cristiano Hoppe Navarro às 21h06
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Comercial de sabão em pó
Sem precisar recorrer a crianças se enlameando, e sujando alvas camisetas brincando na terra. ã Cristiano Hoppe Navarro Comercial de sabão em pó Trincheira de guerra. Há vários dias o grupo de soldados está postado atrás de um cercamento de pedras. Ambiente lamacento. O general discursa para o batalhão, mostrando em um mapa as opções estratégicas possíveis: ou seja, nenhuma em termos territoriais. A solução, conclui-se, é pedir uma trégua e negociar um acordo de paz. - Mas como vamos sinalizar isso? – pergunta um tenente – É só sair da trincheira que seremos fuzilados. [Este trecho entre colchetes que segue pode ser descartado: - Com uma bandeira branca, claro – responde um sargento. - Não temos isso. - Sim, mas temos sabão em pó X! - E daí!?] - Me passe sua camiseta! – o sargento pega das mãos do tenente uma camiseta empapada de lama, mas que originalmente é branca e a coloca em uma tina com água. Pega uma caixão de sabão em pó Omo e mistura na tina. Rapidamente surge um tecido alvo retirado da tina. Um soldado pega a camiseta agora branca e estende acima do cercamento de pedras. [No fim, uma voz pode anunciar um slogan semelhante a este: “Sabão em pó X, para até guerras”].
Escrito por Cristiano Hoppe Navarro às 21h03
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Reportagem sobre o parkour em Brasília I
A utopia da linha reta Saltos, corridas, escaladas e equilibrismos para ir mais velozmente de um ponto A a um ponto B Por Cristiano Hoppe Navarro
Imagine a sua casa e o lugar onde você trabalha, estuda ou passeia. Em geral, o caminho entre um e outro é feito de carro, ônibus, metrô, bicicleta ou a pé. Muitas vezes, o trajeto é recheado de curvas, contornos e desvios daquilo que constitui a rota mais curta. Mas não para quem faz parkour. Os mais exímios praticantes da arte do deslocamento correm, escalam, equilibram-se e saltam para superar os obstáculos nos espaços urbanos e conseguir aquilo que a tecnologia não foi capaz: a linha reta. Recentemente muitos têm aderido à modalidade, na esteira de vídeos na internet, games, videoclipes e filmes que mostram traceurs em movimentos típicos nas ruas, muros, escadas, corrimões, árvores, arbustos, pedras, grades, prédios, casas, telhados, paredes e o que mais estiver pela frente. “E realmente em toda a cidade lá estávamos; lá estava o parkour. Você precisa apenas olhar, você precisa apenas imaginar, igual uma criança”, afirmou Sébastien Foucan no documentário “Jump London”.
Junto com David Belle, Foucan firmou as primeiras bases do parkour na década de 1980. No final dos anos 1990, os dois franceses divergiram, juntaram-se a grupos diferentes e deram origem a modalidades distintas. Foucan adotou o Free running, “corrida livre” na tradução literal, corrente caracterizada pela utilização de movimentos com fins estéticos, plásticos, acrobáticos – não necessariamente os mais eficazes para a transposição de um obstáculo. Belle seguiu com o parkour, cujo percurso visa à linha reta: a maior eficiência possível ao deslocar-se de um ponto “A” até outro ponto “B”. Movimentos como o mortal ou o giro em 360º, com sua utilidade questionada, são deixados para os free runners – integrando parte de uma rixa ancestral entre beleza e objetividade. A corruptela “parkour” aponta, entretanto, para antecedentes mais remotos. Viria de “parcours du combattant”, o “percurso do combatente”, técnica militar de obstáculos muito usada hoje, mas idealizada por soldados franceses no Vietnã. O treinamento fora inspirado no Método Natural de Educação Física, publicado em 1942 e 1943 em quatro livros pelo esportista e viajante Georges Hébert. Em 8 de maio de 1902, aos 27 anos, o francês coordenou os esforços de evacuação de 700 pessoas próximas a Saint Pierre, principal cidade da colônia francesa de Martinica, no Caribe, que presenciava erupção vulcânica no Monte Pelair que vitimou 30 mil pessoas. Viajou pelo mundo e conheceu povos indígenas e africanos, assegurando: “Seus corpos eram esplêndidos, flexíveis, ágeis, habilidosos, duráveis, resistentes e ainda nunca tiveram nenhum tutor em ginástica exceto pelo seu convívio com a natureza”. Os dez mandamentos físicos do “atleta natural” exprimiam determinadas qualidades: andar, correr, saltar, escalar, mover-se em equilíbrio, em movimento quadrúpede, arremessar, levantar, defender-se e nadar. A primeira meia dúzia volta com força no parkour do Século 21, com uma diferença marcante: o meio-ambiente ao redor. Domingo, 30 de junho de 2010, 14h30, estação de metrô da 108 Sul. Um grupo de quatro jovens, alguns trajados com camisetas com dizeres relacionados ao parkour, se reveza para realizar passement e mortal no corrimão da escada que dá acesso ao veículo subterrâneo. Várias pessoas se voltam para olhar, curiosas. O parkour veio para o cerne do meio urbano, interagindo com o que nele há. Em Brasília, treinos semanais noturnos ocorrem terças e quintas na SQS 303 Sul, e vespertinos aos sábados na SQS 308 Sul. Também há encontros regionais de traceurs, assim como sessões especiais marcadas à parte, como percursos à noite nas ruas. Às terças e quintas há realização de percursos curtos, com saltos seqüenciais, vencidos do modo mais rápido. “Primeiro devagar, tudo certinho, depois com mais velocidade”, conta Matheus Braga Cabral. Quando sozinho, ele faz treinos mais objetivos, tenta imprimir maior velocidade, trabalhando ora focado em braços ora em pernas e “vendo o que tem que evoluir mais”. Se há grupos maiores, a opção é por percursos longos. Quatro a dez pessoas é a média atual, mas já apareceram 25 – adolescentes e adultos jovens de mãos calejadas e com vídeos de sua arte no YouTube. O discurso da evolução no parkour é comum. O ucraniano Taras Rohouets, 17 anos, que conheceu a modalidade no site Orkut e começou a treinar em Brasília há três semanas, disse que a prática é “difícil”, mas fez a ressalva: “Tô melhorando”. Iniciante, testemunha a ajuda do parkour na manutenção da saúde, fortalecendo ossos e coluna. Apesar da superquadra estar consagrada como local dos encontros, o parkour não necessita de lugar específico, propondo a livre interação com a arquitetura das cidades. Brasília, plana e construída de modo planejado, favorece um determinado estilo de parkour. A linha reta entre sua casa e seu trabalho não é utopia se você morar no Plano Piloto, onde as edificações não são cercadas e pode se transitar dentro dos blocos. “Não pode focar muito em altura”, afirma Matheus, 15 anos, completando que, embora exista, “Big Jump não é muito encontrado”. “A arquitetura de Brasília é muito diferente do resto do país, tudo é de uma altura bastante razoável e de grau de dificuldade moderado, então o diferencial dos traceurs de Brasília é a força física, que é onde focamos para melhorar as técnicas, já que os obstáculos não são o mais desafiador depois de um tempo”, diz Alberto Brandão, membro do BRTracer, clã mais conhecido da cidade. A altura reduzida induz a uma prática mais centrada em vault e precision. “Brasília é uma referência em arquitetura, mas não para o parkour, pois são poucos os ‘picos’, mas com uma certa criatividade qualquer lugar pode virar um local de treino”, diz Ruben Naftali, 16 anos de vida e dois como traceur na capital brasileira.
Escrito por Cristiano Hoppe Navarro às 20h41
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Reportagem sobre o parkour em Brasília II
Partilhando de elementos comuns a técnicas tão diversas como as artes marciais, a capoeira, o skate, a ginástica artística, a meditação, o atletismo e a dança de contato e improvisação, o parkour não precisa de estruturas como uma pista, tatame ou aparelhos. Tampouco no parkour é imprescindível algum equipamento – não obstante as pretensões de marcas de material esportivo em lucrar com a venda de tênis voltados especialmente à modalidade. Basta o próprio corpo, e aí talvez resida o porquê de suscitar tamanha discrepância em uma sociedade altamente dependente do tecnológico. Praticantes dizem que enquanto o parkour não se profissionalizar, não haverá quem se dedique de fato à modalidade, por não ser possível viver de seus ganhos com a prática, que não é considerada esportiva. Para os traceurs, parkour é arte, forma de treinamento para a fuga, lazer, filosofia de vida e/ou disciplina física. Mas, assim como espetáculo artístico, L’art du déplacement pode tornar-se desportiva, como no Barclaycard World e no MTV Ultimate Challenge. Possibilidades são competições baseada em notas como na ginástica olímpica ou, fazendo jûs ao espírito de eficiência do parkour, corrida entre obstáculos focada no tempo do percurso. Alberto, 25 anos, é contra a profissionalização – os torneios não seriam atraentes visualmente e causariam muitas lesões graves: “O parkour é uma atividade para toda vida, em que se você se lesiona, seu tempo de treino e habilidades se reduzem”. Sobre a aceitação do parkour brasiliense, porém, faz mea-culpa: “A sociedade está aí muito antes de a gente calçar nossos tênis e sair subindo paredes e pulando dos muros, nós destoamos do cenário, e precisamos ter cuidado quando fazemos isso”. “Tem de tudo”, diz Matheus sobre a opinião de outras pessoas em Brasília. “Alguns aceitam, dizem que é legal, maneiro, mas outros acham que é vandalismo”, depõe, lembrando de uma ocasião de um treinamento na SQS 308 Sul em que, denunciados por um morador, os praticantes foram abordados pela polícia e revistados. “A aceitação é tranqüila e amigável, pois Brasília está sempre aberta para novas práticas”, observa Ruben, que vêm de Samambaia para treinar na capital. Fora das capitais e cidades maiores, centros mais esclarecidos sobre o que é o parkour, a situação é mais crítica. “Os guardas não deixam nem andar em corrimão”, protesta Fernando “Mad” Oliveira sobre os municípios da Grande Porto Alegre. É na internet que os traceurs brasileiros mantêm contato. “O parkour nasceu a partir da internet, tudo que a gente sabe saiu dali”, diz Marco “Neni” Rohenkohl, de Porto Alegre. Da comunicação pela web surgem visitas e eventos realizados pelo Brasil. Gustavo Carvalho, 20 anos, afirma já ter praticado em Salvador, onde mora, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa e Natal, e na região sul e sudeste, em encontros do gênero. Vendo de fora, ele tem uma opinião sobre os traceurs de Brasília: “São mais fortes na parte superior do corpo em razão de existirem muitos parques com barras”. A liberdade dos traceurs os sujeita a quedas, arranhões e escoriações, razão pela qual o estudioso americano David Thomson qualificou a prática como “desconcertantemente arriscada”. Mas “os momentos mais perigosos em seu treino ocorrem enquanto você está executando as técnicas mais simples e apenas não está prestando atenção suficiente”, considera o traceur inglês Chris “Blane” Rowat, integrante do “Parkour Generations”, grupo que ministra aulas em escolas britânicas. Mas o risco de ser livre compensa. Júlio de Barros, paulistano, 22 anos, resume: “Para mim parkour é uma coisa: liberdade. Ser capaz de usar meu corpo de uma forma eficaz, alcançando meus limites, tornando-me mais forte, sendo eu mesmo independente do que as pessoas possam pensar de mim. Parkour para mim é a liberdade de ser quem eu sou, da forma como quero, onde eu quero”. E aí se inclui a linha reta até o trabalho. Cantou Joan Manoel Serrat: “Caminhante, não há caminho; se faz caminho ao andar”. n PARKOURPÉDIA Big Jump – salto de alturas elevadas Clã (ou crew) – grupo seleto de praticantes David Belle – francês, considerado fundador do parkour Être et durer – “Ser e durar” em francês, lema do parkour pelo qual deve se evitar ferimentos Être fort pour être utile – “Ser forte para ser útil”, máxima do parkour sobre seu conceito de utilidade para a comunidade Flow – o movimento com fluência, buscado pelos traceurs Free runner – praticante de free running Free running – modalidade que difere do parkour por adotar também movimentos estéticos sem o objetivo da eficiência Georges Hébert – francês, desenvolveu o Método Natural de Educação Física, que influenciou o surgimento do parkour L’art du déplacement – “arte do deslocamento” em francês, também designa o parkour Le Parkour – pode ser entendido como “o percurso”, com “o” mudo, expressão cunhada por Foucan que vem de “parcours” Método Natural – publicado em 1942-1943, baseia-se na educação moral, no senso de frieza, coragem e força de vontade, e nas qualidades físicas de resistência, força e velocidade Migrar – quando um grupo de traceurs em um treino decide se dirigir para outro local onde é possível treinar movimentos isolados do parkour Monte Pelair – vulcão que entrou em erupção em 1902 na Martinica, quando Hébert coordenou a fuga de 700 sobreviventes Parcours du combattant – treinamento militar de obstáculos criado por soldados franceses no Vietnã sob a influência do Método Natural de Hébert Parkourista – outra designação para traceur Passement – qualquer movimento no qual se sobrepõe um obstáculo Salto de precisão – salto estático de um ponto a outro, geralmente uma borda ou lugar pequeno, também chamado de “precision” Saut de bras – salto que acaba com o traceur pendurando-se e fixando-se num obstáculo Sebastién Foucan – francês, criou o free running Trace-out – sinônimo para parkour Traceur – o praticante de parkour (“u” mudo) Traceuse – a praticante de parkour (“u” mudo) Vault – termo em inglês que significa o mesmo que o francês “passement”
Escrito por Cristiano Hoppe Navarro às 20h40
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Reportagem sobre táxis em Porto Alegre I
Dentro e fora dos carros rubros de placas vermelhas Desaviso (poema de Duda Cassol estampado na janela do ônibus T9) Enquanto os humanos se atropelam, Na vã busca pelo último táxi, O moribundo, calmamente, Acena para o ônibus que ninguém viu... Por Cristiano Hoppe Navarro Porto Alegre tem quase dez mil taxistas. Mesmo com esse montante, os próprios taxistas acusam um intervalo em que se verifica não raramente escassez de táxis livres. No período das seis da tarde às sete da noite, a maioria dos taxistas das rádiotáxis de Porto Alegre – Disk Táxi, Gaúcha, Tele Táxi, Transtáxi, Cooptáxi e Cidade –, assim como de vários pontos fixos, realiza a troca de turno. O horário de “rush” somado às providências tomadas pelos condutores – encher o tanque, lavar o carro, ir ao mecânico – antes de passar o veículo ao motorista do turno seguinte ou mesmo o término da jornada de trabalho, acarretam numa freqüência diminuída de táxis livres. Assim, em avenidas movimentadas, é comum ver pedestres estendendo o braço para requisitar um táxi que não carrega ninguém, e o condutor ignorar o sinal e seguir. Uma lei em trâmite na Câmara de Vereadores promete sinalizar claramente, indicando se o táxi está disponível por meio de um luminoso aceso ou uma placa com os dizeres “livre” – novidade aprovada pela categoria em enquete do Sindicato dos Taxistas. O dispositivo legal, entretanto, não mudará a realidade em termos de quantidade de táxis no final da tarde. Ricos, turistas e apressados Quem pega táxi, em uma cidade com um sistema de ônibus eficiente, normalmente não tem usos mais urgentes e prioritários para os gastos despendidos, é turista (no sentido mais amplo da palavra, considerando-se que se pode ser turista dentro do próprio município) e/ou está apressado. Mesmo aplicando-se o uso dos táxis em geral a um desses critérios, há uma quantidade significativa desses veículos vermelhos, de placas igualmente rubras, em Porto Alegre. Considerando que os 9700 taxistas da capital gaúcha rodam a média de 400 quilômetros ao dia, seria o mesmo que, somados todos os deslocamentos de táxi em um ano, ir da Terra a Saturno, o planeta rodeado por anéis que é o sexto em distância do Sol – depois de Marte, o planeta vermelho, e de Júpiter, o maior dos mundos a girar em torno da estrela. Das três, uma: ou a cidade tem uma fenomenal fatia de abastados, ou, de posse de famosas atrações turísticas, vêm atraindo cada vez mais esse público, ou parcela de sua população sofre de uma síndrome moderna da urbanidade: a pressa. Todas podem ser consideradas verdadeiras, mas qual é predominante? A última destaca-se. Mas “correr não adianta, é preciso partir a tempo”, disse La Fontaine. Pressa gera mais pressa: a evolução dos meios de transporte não deu ao ser humano mais tempo, como muitos esperavam, ocorrendo usualmente o contrário. Origens O veículo de aluguel não é invenção recente: ainda no século dezenove, carruagens puxadas por cavalos chamadas “cabriolets” eram comuns na França e na Inglaterra, sendo a denominação reduzida para “cab” entre os bretões. A criação de um mecanismo para apurar a metragem percorrida e a partir dela calcular a taxa a ser cobrada – o taxímetro –, deu aos cabriolés assim equipados a alcunha de “taxicab”, mais tarde abreviado para “táxi” nos países latinos. É desta maneira o pagamento diferenciado em função da distância do trajeto, diferentemente do ônibus ou do porto-alegrense táxi-lotação, uma característica do táxi. Para o taxista, é, portanto, rentável realizar mais rapidamente os percursos solicitados, envolvendo-se em mais corridas. A fluidez do trânsito é para ele benéfica. Na falta dela, muitos se especializam nos atalhos das ruas – lícitos ou não. Fluidez e atalhos - Isto é uma confusão. Devia ter uma sinaleira aqui – afirma José Carlos Ramirez da Silveira, prefixo 2169, postado na fila de carros na rua Carazinho. À sua esquerda, estão um supermercado e a praça da Encol, separadas pela Nilópolis. À direita, a Nilo Peçanha. Em frente, antes da Carlos Trein Filho, fica a rótula, uma das maiores queixas dos taxistas porto-alegrenses, que costumam dizer que ali impera a selvageria. É preciso ter coragem para avançar a parte frontal do veículo antes dos outros. Para Roger de Souza Ribeiro, prefixo 3597, a solução, acompanhada de uma indignação com “eles” (políticos?, autoridades?, engenheiros?) e de palavreado chulo (“esses olhos do #@”), é outra: - Eles podiam colocar um viaduto aqui. (Isso) Não tem cabimento. Outros taxistas, como Robert Krischer, desempatam a pendenga em favor da elevada. Um deles conta que já houve um semáforo ali, que não teria funcionado, e por isso prefere o viaduto, segundo ele, uma promessa feita pelo prefeito José Fogaça no rádio. - Se cada um deixasse passar um do lado oposto, a coisa funcionaria – percebe a maioria dos colegas de automóvel e placas vermelhas (excetuando-se os do aeroporto, pintados em branco com uma listra azul da Cootaero, a cooperativa dos táxis para aqueles que chegam de avião). Frente ao vai-não vai, há uma forma de trapacear. Por princípio ou por desconhecimento, Silveira não a utiliza. Muitos taxistas atalham pela entrada do estacionamento do supermercado na Carazinho, saindo na Nilópolis e poupando assim alguns minutos e diminuindo o risco de acidente. O taxista do prefixo 2383, ele mesmo cortando caminho pelo estacionamento, ignora Silveira e generaliza: - Todo mundo faz isso. Não sei por que por aqui (pela Nilópolis) é mais rápido, devia ser igual...
Escrito por Cristiano Hoppe Navarro às 20h31
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Reportagem sobre táxis em Porto Alegre II
Os humanos nas máquinas Não é só de máquinas que é feita a vida do taxista. Se do lado exterior estão outros veículos com destinos distintos, no seu interior o taxista cruza com milhares de vida as quais, geralmente, nunca mais vê. Tudo em questão de poucos minutos. Às vezes conversam, noutras não. Alguns falam de amenidades, discorrem sobre a previsão do tempo, clássico gre-nal e futebol (quando muitos descambam para contar as tentativas do filho que tenta ser futebolista profissional). Criticar o trânsito é igualmente comum, como é o caso de Gilberto de Oliveira Squeff: - Em todo lugar tem tranqueira... Já outros abrem o coração para um completo desconhecido, protegidos pelo anonimato em que muitas vezes o diálogo surge sem que sequer os interlocutores se olhem cara a cara, já que o carro não dá margem a esse posicionamento, seja com o passageiro nos bancos traseiros ou no co-piloto. Há taxistas que desandam a falar, e há os que ouvem atentamente para depois transformar em livro. É o caso de Mauro Edson Santana Castro, 42, que mantém o blog Taxitramas com o seguinte lema: “taxistas são terríveis: reparam em tudo”. Mas ele, que anota seus textos em versos de panfletos recebidos ao semáforo, ainda narra tudo na internet. Categoria unida O blogueiro é um luminar de uma categoria bastante unida. - Acabamos ficando amigos. Eu vou no ponto deles, eles vão no meu ponto, e assim por diante – diz outro taxista, responsável pelo prefixo 2383, que se encontrava em um ponto no bairro Jardim Botânico, longe do seu de origem na Farrapos. O sentido de comunidade é visível no trânsito e nos pontos de táxi. – Em Porto Alegre, 50% é ponto livre e 50% ponto fixo. Deve ter mais de duzentos pontos de táxi – acrescenta o taxista itinerante do 2383. Há um código de ética da categoria nos pontos de táxi, marcados com uma placa azul similar a dos pontos de ônibus. Quem chega vai entrando na fila e espera a sua vez. No trânsito, um taxista perdido recorre a um colega. Às vezes, para indignação dos demais condutores, os taxistas se unem para práticas reprováveis: quando um colega faz uma barbeiragem e colide com outro carro, os taxistas tomam seu partido mesmo não tendo ele a razão. Em uma ocasião, um taxista deu uma ré ao deixar um passageiro e incidiu a parte traseira contra a lateral de um carro estacionado. Questionou, então, se o carro abalroado era do passageiro, que disse não. Em seguida, este desceu e o taxista fugiu. Taxista típico No caso dos empregados das rádiotáxis, há o comunicador sempre ligado, pelo qual os taxistas são direcionados para as corridas de acordo com a sua localização e a proximidade com o chamado. Por vezes, tem de ouvir bravatas humoradas, como: - Acabaram as inscrições. É quando o indivíduo que mapeia onde estão os clientes e envia os táxis para os locais protesta quanto à demora dos taxistas em assumir para si um chamado. Noutras, o debate é em torno de animais de estimação. - Posso levar um cachorrinho? – pergunta o passageiro. O diminutivo, nesses casos, às vezes é enganador, mas a única evidência que o taxista tem para decidir se aceita ou não levar um animal no táxi. Muitos taxistas também trabalham com divulgação boca-boca. Ao passar diariamente com dezenas de pessoas de poder aquisitivo no mínimo razoável, tem nas mãos o poder de levar adiante campanhas eleitorais, distribuindo folhetos e propagandeando candidatos, assim como de promover estabelecimentos, como clínicas de massagem e casas noturnas, por exemplo. Não é incomum ter no carro panfletos desses locais e receber porcentagens dos gastos realizados pelos passageiros que o taxista carrega até lá. Ambição financeira é ainda um traço usual entre os taxistas. Muitos utilizam o táxi como trabalho temporário para pagar a faculdade dos filhos. Outros almejam criar uma empresa de táxis, como o senhor que cuida da Rota. Instigado a falar sobre a rádiotáxi, pensou se tratar de um espião e proferiu: “Tenho mais oito concorrentes e vou ficar te dando informação? Quer saber como consegui fazer a empresa crescer? Tu quer (sic) montar uma pra ti, é isso?”. Entre os empregados, há o objetivo de se tornar patrão. Do mesmo modo, dirigir menos também passa a ser vislumbrado, a partir do aluguel do carro. Há, por exemplo, um dono apenas responsável pela manutenção e dois condutores que alugam o carro no prefixo 4983. Paulo Lopes trabalha também como motorista de ônibus da Carris e o outro vive exclusivamente do táxi. Na segunda, 18 de maio, o veículo marcava 99233 quilômetros rodados. Na quarta, se a média continuasse, atingiria a marca de uma centena de milhar, após apenas um ano e três meses. Os dois condutores repartem o tempo no táxi, alugando cada um por 60 reais 12 horas ao dia, podendo andar até 200 quilômetros e depois entregar o carro ao colega já abastecido. Geralmente, o carro perfaz em torno de 400 quilômetros por dia e 12 mil por mês. Sábados de noite e o domingo inteiro só um fica com o táxi, num sistema de revezamento. Lopes diz que já lhe ofereceram um carro próprio a 35 mil reais, mais 1500 por mês, mas por um contrato de apenas dois anos. “Se fosse quatro anos, pagava, valia a pena”, pondera. “Dirigia das seis da manhã às dez da noite e colocava alguém com comissão, que é 25%, dava um pouco mais, 30% para não me roubar, e tinha lucro”, ambiciona. Assento com bolas para massagear as costas e aliviar a tensão, santinho e foto da família no pára-brisa, o Diário Gaúcho entre os bancos dianteiros e o inseparável rádio instalado para ouvir música, notícias e futebol enquanto dirigem são itens que perfazem o arquétipo do taxista porto-alegrense. Alguns, afinal, chegam a passar mais de dez horas ininterruptas ao volante.
Escrito por Cristiano Hoppe Navarro às 20h31
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Reportagem sobre táxis em Porto Alegre III
Conflitos do trânsito Mas tal jornada extenuante não os torna máquina. Suscetíveis às emoções, ficam fulos quando perdem um passageiro para outro motorista. Quando recebem um sinal em uma avenida movimentada e só conseguem parar bem adiante, outro taxista estaciona em frente ao cliente, e ganha a corrida. Douglas da Silva Laitembergue, prefixo 3375, começa meio-dia e só para pelas seis da manhã: depois se dá um período de repouso e encara de novo 18 horas seguidas atento ao presente fora do táxi. Simultaneamente, dentro do táxi conversa com o passageiro sobre estórias de seu pretérito ou discute atualidades do presente. Por vezes, as atualidades abarcam riscos externos, mas não chegam precisas aos ouvidos dos passageiros. Na quarta, 13 de maio, houve um assalto com morte em uma joalheria. Entre os taxistas, as notícias correm com a velocidade de seus deslocamentos, e no fim da tarde a comunidade de táxis já sabia do ocorrido. Mas sem a garantia da acuidade. Para um taxista, o dono do estabelecimento tinha reagido, atirando com a arma que repousava debaixo do balcão no assaltante e o matado, e tinha sido baleado no braço e levado para o hospital. Já para outro, que comentara o caso no início da noite, o dono havia morrido, quem atirara foi o segurança e o assaltante é que fora baleado. Para ambos, era uma relojoaria. Já para um terceiro taxista, alguns dias depois, o estabelecimento era uma joalheria, mas quem acertara o assaltante fora um sócio. Noutras ocasiões, o perigo se insere dentro do carro: a maioria dos taxistas já sofreu um assalto. O vidro fumê passa a ser uma providência, mas ao mesmo tempo confunde o passageiro que faz sinal na rua, que não sabe se o táxi está livre. Mas a lei do indicativo de táxi disponível pode acabar com essa dúvida. Já com os assaltos, porém, nenhuma lei sequer insinua eliminar. Como o celular é uma exigência, alguns taxistas, acostumados com os assaltos, compram modelos baratos: - Este celular é ruim demais. Mas custa 20 reais. Aí não dá problema num assalto – diz Souza Ribeiro. “Ainda na Avenida Bento Gonçalves, eles anunciaram o assalto. O homem tinha uma faca enorme com a qual passou a espetar minhas costelas”, conta em seu blog Santana Castro. “A mulher, por sua vez, puxou uma pequena faca de cozinha de dentro da bolsa. Por sorte, um colega que vinha atrás de mim na avenida percebeu o sinal que fiz e passou a seguir meu táxi”, complementa, revelando que entre os taxistas já há códigos para comunicar e escapar de situações como essa. Embora à mercê desse tipo de investida criminosa, os acidentes é que vitimam mais os taxistas. Ou as taxistas – no caso da responsável pelo prefixo 3356, empregada de uma rádiotáxi. - As motos aproveitam. Quando dá um espaço, cortam pelo meio – reclama ela, relativa raridade numa profissão majoritariamente masculina. As motos, motoboys incluídos, são de fato um dos grandes rivais dos táxis: com sua agilidade em duas rodas, trafegam entre os carros, causando batidas e conseguindo se deslocar mais rápido que os taxistas. Há, porém, projeto de lei tramitando para impedir essa liberdade das motos de constituir uma “nova via” entre as demais. É uma norma que, como a “lei seca”, favorece os taxistas, mas que pode não vingar. Reis dos serviços de entregas, os motoqueiros não dão conta do transporte de gente. Entretanto, o espaço e o conforto do ar-condicionado pagam o preço da lentidão: tanta potência às vezes fica estagnada em um colossal engarrafamento. É mister do condutor então propor rota alternativa para vencer a lentidão da hora do “rush”, como no início do filme “Colateral” – indicação de Oscar de ator coadjuvante para Jamie Foxx, no papel de um taxista que se vê transportando e aguardando em vários locais um assassino, ou seja, o carro de aluguel em prol do matador de aluguel. Noutros lugares Antonio Almir Carbonar dirige o táxi de prefixo 3876. Mas seu táxi não é vermelho – é laranja e possui um detalhe que se assemelha à uma bandeira quadriculada preto e branca igual às das chegadas da Fórmula 1. Isto porque ele é de Curitiba, uma cidade um pouco mais espalhada e ligeiramente mais populosa do que Porto Alegre, mas com qualidade de vida equivalente. Carbonar, natural de Veranópolis, interior do Rio Grande do Sul, arrepende-se de ter distribuído entre os passageiros todos os cartões postais com a principal atração turística de sua cidade: o restaurante giratório, “único no Brasil”. Apesar de enaltecer o município e, sobretudo, a construção que já tem dois anos, elogia a capital paranaense onde mora e os arredores, como a Ilha do Mel, onde já foi diversas vezes. Enquanto em Porto Alegre, as bandeiras 3 e 4 foram recentemente eliminadas, em Curitiba elas foram acrescentadas às pré-existentes 1 e 2. Mas o significado das bandeiras extras não é o mesmo que elas tinham na capital gaúcha, onde se cobrava centavos a mais quando o número de pessoas no táxi ultrapassava três. Lá, há um acréscimo no valor da corrida quando ela ultrapassa os limites do município. Antes, avisar o passageiro do adendo de cerca de 30% sobre o que indica o taxímetro – necessário, por exemplo, para ir do centro ao aeroporto (que fica em São José dos Pinhais) – era prerrogativa do motorista, o que freqüentemente gerava reclamações. Mas hoje os táxis laranja (e os brancos do aeroporto) possuem as bandeiras 3 e 4, o que trouxe para o taxímetro o valor acrescido, e “melhorou muito a deslocação (sic)”, diz Carbonar. Já no interior, a vida do taxista é diferente. “O trabalho é tranqüilo”, diz Gracildonei Vieira, que além de conduzir táxi em Portão, município da Grande Porto Alegre com pouco mais de 30 mil habitantes, é radialista e cursa Ciências Contábeis. “Sildo”, como é conhecido, conta que é difícil pegar serviço à noite: “às vezes a gente leva algumas garotas num baile” e que há muitos passageiros contumazes: “levo senhoras idosas ao supermercado, há algumas que são clientes há três ou quatro anos”. O taxista, que também narra partidas de futebol do campeonato local, afirma que muitas vezes atua como um psicólogo ou terapeuta. “A gente procura ouvir mais do que falar. Quanto mais a gente ficar calado melhor”. Mesmo vivendo em cidade pequena, “Sildo” crê que o ramo dos táxis “é uma área de risco”. Diz que “na dúvida, não vai”. O taxista, que é proveniente do Acre, comenta que, apesar de ter um ponto fixo, procura usar mais o telefone, assim como a maioria dos colegas. “É algo que mudou, desde a era celular”. Bandeira Faz alguns meses, portanto, que não faz mais diferença o número de passageiros no pagamento da tarifa. Foram extintas as bandeiras 2 e 4, para três ou mais passageiros, e a bandeira 3 virou 2. Agora, apenas o horário – depois das 22 horas até as 6 da manhã - acrescenta centavos ao taxímetro. Uma briga do Sindicato dos Taxistas da Capital é justamente pela utilização da bandeira 2. No mês de dezembro, afirmam, se justificaria a cobrança dessa bandeirada nas 24 horas. Verdade ou mentira, um taxista da Zona Norte denuncia uma suposta prática à luz do dia dos colegas da rodoviária, onde há mais táxis: - Lá tem que tomar cuidado. Eles usam bandeira dois, mas colocam uma fita crepe no taxímetro em cima do número, e o passageiro pensa que está pagando bandeira um. n
Escrito por Cristiano Hoppe Navarro às 20h13
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O que você vê?
Gostaria de ouvir sua resposta, ilustre visitante. Poste nos comentários! O quadro abaixo está disponível em versão maior em www.twitpic.com/qnrbn. E os depoimentos que vem na seqüência dele são todos verídicos*. 
“É o mito da caverna”, expositora de salas temáticas sobre mitos como Gilgamesh e Minotauro da Feira Nacional de Filosofia da Nova Acrópole “Esse gato na verdade está indo na direção do mar, ele vai para a praia e de lá para o mar atrás dos peixes que estão lá”, Dona Sônia, zeladora do meu prédio em Porto Alegre “É o quadro que resolveu a questão sobre o que colocar na capa do meu livro Contos de Terráque@s”, autor do quadro “As maçãs caíram da árvore se amontoando ao nosso lado, é como nosso planeta, que está em perigo”, ecologista que anda de bicicleta e deixou de comer carne às segundas “É o capitalismo desenfreado, a busca pelo dinheiro acima de todas as outras coisas mais importantes”, universitário militante e membro do PSol “Os galhos estão bem incrustados no dinheiro, há ramificações e estamos no culminar de toda uma movimentação”, banqueiro defensor dos empréstimos trilionários para os bancos na crise do ano passado “Buscamos a fama e ser melhor do que os outros, e a imagética disso está clara na cédula, que contém símbolos da competição e da aristocracia: o número 1 e a rainha”, sociólogo da nova safra francesa “Não quero mais virtual, está escrito ali: real!”, internauta indignado porque não consegue encontrar na realidade as garotas com que fala no MSN “É a busca pelo real”, Larry e Andy Wachowski “Eu vejo cerca de quarenta frutos no pé de um vegetal mutante, um animal felino e seis seres humanos, mas 50% desses humanos são meio-animais e 33% podem ser na verdade extraterrestres ou humanos de outros planetas”, estatístico, convencido de que o próximo Einstein será um colega seu “Esse quadro está ultrapassado, quase não existem mais cédulas de 1 real, agora temos as de 2 reais”, técnico do Banco Central à luz pura dos fatos “É a paixão: às vezes sufoca como astronautas presos dentro da sua roupa de astronauta, mas que revela todo um mundo à sua frente com a companhia do lado”, casal apaixonado “Esquerda, direita, frente, trás, para cima, para baixo, é tudo movimento, mas os astronautas mostram que oxigênio é fundamental”, educador físico “Qual é a notícia? Gato amarelo se rebela contra a evolução! Ou, talvez: Primeira viagem no tempo leva dois astronautas a Terra pré-histórica. Ou quem sabe, ainda: Poluentes criam árvore transgênica”, jornalista “Se você perceber bem, os indivíduos não estão indo na direção da árvore, que está um pouco mais à frente, há um desvio, eles estão indo para algum outro lugar”, observador atento “Do escuro vai se ao claro e vice-versa”, cientista explicando como são as coisas “Uma pintura de alguém que não tem as mais básicas noções de pintura”, crítico de arte clássica “Não são astronautas, são taikonautas”, chinês “Esse vermelho parece Marte e o gato é legal porque não vai na onda dos macaquinhos”, minha prima de 9 anos “A mão vai na direção do dinheiro mas não consegue pegá-lo, é que nem eu”, trabalhador “Oba!, dinheiro passou a dar em árvore!”, endividado “Os astronautas estão de frente para nós, de frente para o que está acontecendo ou ambos?”, estudante de arquitetura preocupada com a perspectiva “Esse gato não me cheira bem: tem cara de mau e ainda está indo na direção contrária”, dona de um cachorro “Tira dez pixels embaixo e dez pixels em cima e a atmosfera muda completamente”, diagramador “É um raio rasgando o céu!” “Não, é uma praia pré-histórica ante um mar repleto de vida!”, discussão entre um meteorologista e um paleontólogo “O azul está em cima, o vermelho está embaixo, é óbvio que é o céu e o inferno. E talvez o gato seja uma alegoria para Deus”, padre católico “É a evolução: eu já sabia!”, Charles Darwin, há 150 anos “A evolução continua”, mais uma vez o observador atento * Exceto os últimos vinte e cinco.
Escrito por Cristiano Hoppe Navarro às 16h24
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Microcontos aliterativos
Inventei uma nova modalidade literária: o microconto aliterativo. Já existiam microcontos e já existiam poemas aliterativos. Eu juntei os dois. Peguei o formato do microconto à la Twitter, onde o máximo de caracteres é 140, e inseri as aliterações. A receita é a seguinte: pegue um radical, como “missão”, por exemplo. Agora investigue os termos que possuem o radical, mas através de prefixos e sufixos galgaram outros significados. Missão, remissão, demissão, transmissão, permissão, comissão. Agora pegue todos estes termos, misture bem e faça uma historinha com eles em até 140 caracteres. A seguir, os microcontos aliterativos que já bolei. O terceiro chegou a ser publicado no jornal Correio Braziliense. Todos estão no meu Twitter: @cristianohoppe A comissão médica decretou a demissão. Sem permissão pra ir e vir devido à transmissão da doença, sua missão era da remissão chegar à cura. Fez um curso pra estudar pra concurso. Mas todo o percurso foi em vão pois um discurso era dúbio numa questão. Entrou com recurso. Diziam que sua diversão era nada mais que perversão. Para reversão do quadro, optou pela conversão. Católico, tem hoje a Bíblia como versão. Pra sua contenção, efetuaram a detenção, limitando a extensão de seu mundo, numa retenção. A pretensão era viver intensamente. Criou tensão. Reportaram na imprensa. Foi deportado dos States. Comportou-se mal, portava maconha. Não pra exportar, consumo próprio. Mas se importaram. Frustraram sua aspiração. Respirou fundo, inspirou e expirou, tentando evitar a suspeita de conspiração. Mas não adiantou, acabou pirando. Acordei nostálgico, recordando o que não aconteceu. Não sabia se concordava ou discordava daquilo. Mas dei corda. No despertador. Calhou que foi do vegetal ao animal. Detalhava o entalhe, talhando, retalhando a madeira. Após, empalhou bichos, espalhou cabeças na parede.
Escrito por Cristiano Hoppe Navarro às 20h46
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Cordel do Orkut
I – Faz parte Há que se pensar no Orkut. Faz parte de nossa vida como o copy and cut. É viagem só de ida. Quem usa não pára: a não ser nos orkuticídios. No Orkut se compara amigos e indivíduos. Também se discute de tudo um pouco. No site Orkut, se vê muito louco. Como na vida real. Muito malungo, que de fato é legal. Mas cuidado com o fungo. No computador de quem usa mal. Equilíbrio, Nestor, é fundamental. II – Nestor, 535 amigos, 12121 scraps Nestor, o usuário, reencontrou amigos. Com seu salário, viajou pra ver os antigos. Recuperou contato, fez muita amizade. Aceitou o convite no ato, da ☆☆Little Sherazade☆☆ Trocou com ela muito scrap, até chegar no depoimento. E para que não estrepe, oficializou o relacionamento. Atualizou seu status para namorando. Perguntaram uns quantos: desocupados em bando? III – Ocupando-se Orkut é uma rede social que te faz recordar aniversários do pessoal. E um papo pra puxar. Um recadinho não faz mal. São felicitações bem-vindas. Fica feliz o comensal e todos os outros convivas. Há os joguinhos. Beija ou passa? Objetivos parecidos, mas para ir à caça. Ou largar o tédio. Postar comentários, fugir do médio, descobrir usuários. Alistar-se em comus. Cotejar estrelinhas. Criar rebus. Socializar as vidinhas. IV – Publicamente privado Ou vidões de quem tem internet. Ainda há gente sem. Vidas expostas junto com o pet. E amigos que fazem bem. Quer ser meu amigo? Add, add, add, add. Olhando longe do umbigo, that’s not bad. Buyukkokten, o caucasiano, e a lei dos seis graus. Domínio americano? Invasão dos brasileiros. Fotos, vídeos, conversas; terra de ninguém. Curiosos e comparsas, procurando alguém. Delete para não se expor, não há a certeza. Como o sol se pôr, essa é a beleza. V – Orkut recauchutado Um tal de novo Orkut atrai agora as pessoas. O velho era um mamute. Perdão. Merece loas. Pelo histórico desde o ano 2004 de serviços prestados. Falhas são do humano, não de códigos programados. Mas o Orkut bloqueia recados, diz que é spam, e dá pau com nós calados, procurando a razão. O Orkut nunca foi parnasiano. Ele é caótico como as pessoas. Por isso a última estrofe não tem rimas e ainda tem cinco versos.
Escrito por Cristiano Hoppe Navarro às 02h41
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Carta aberta aos educadores físicos
Há um mês e meio me formei em Educação Física. Não tive um colega que não gostasse do curso. Por outro lado, conheci gente que fazia outros cursos por indicação, obrigação, remuneração. Mas não na Educação Física. Todos aproveitaram a faculdade, alguns até adiavam sua conclusão, por gostarem da faculdade, por conhecerem a realidade do mercado, onde as vagas para aplicar o conhecimento adquirido na faculdade ainda eram poucas e com remuneração aquém do que seria suficiente para que às vezes o diplomado não buscasse a estabilidade noutra profissão diferente, ao invés de seguir na carreira que escolheu e mostrar como ela é essencial. As oportunidades podiam até ser poucas, mas a tendência agora vai no sentido inverso. Há duas semanas o Rio de Janeiro foi escolhido sede das Olimpíadas de 2016. Em dois anos, o País abrigará os dois maiores eventos mundiais, ambos esportivos: os Jogos e a Copa. Nos próximos sete anos, estudantes, educadores físicos, treinadores, professores e cidadãos terão uma chance ímpar de desenvolver a educação física. Houve quem torcesse contra o Rio, dizendo que haveria muita roubalheira e que era preciso gastar com educação e saúde ao invés de no esporte. Contra o primeiro argumento, é preciso fiscalizar, mas também acreditar nas pessoas, e isso é papel da mídia e dos representantes eleitos. O segundo argumento não poderia ser mais equivocado – ainda há quem não se deu conta que esporte é isso: saúde e educação. Aí é que os educadores físicos precisam fazer sua parte. Sabe-se que alto rendimento não rima especialmente com saúde, e às vezes nem com educação. E que há duas coisas que o Brasil precisa pra sair dessa Olimpíada com status de força de primeira linha na economia mundial: organizá-la com perfeição e não fazer feio no quadro de medalhas. Assim, é natural que esforços sejam feitos na preparação de atletas hoje adolescentes, que podem brigar por ouros em sete anos. Mesmo que essa afirmação perante as outras nações seja importante, mas não essencial. O que acontece é que pra peneirar esses atletas, o lugar ideal é na escola. E o trabalho a ser feito na escola pode, sim, rimar muito bem com saúde e educação. Não dispensar educadores físicos para trabalhar o lúdico com as crianças no ensino infantil, substituindo-os por formados na pedagogia. Não trocar aulas de educação física por idas à academia no ensino médio. Essas são apenas medidas que visam a dar a chance do educador físico de demonstrar como a educação física é essencial. Mas essa chance chegando, com melhorias esperadas vindas da valorização do esporte num período tão importante pro País, não dá pra desperdiçar. No ensino fundamental a educação física vai permanecer. Dessa faixa etária podem sair os atletas para os Jogos, que podem vir a treinar em centros de treinamento, equipes competitivas e clubes dentro ou fora do colégio. Mas o professor apenas encaminha, seu trabalho é voltado para o grupo todo, e aí sim, rima com saúde e educação. Formar uma cultura esportiva em cada um dos alunos que, com as novas possibilidades de locais para práticas de modalidades que vão aparecer, permita que eles tomem gosto e continuem praticando ao menos um dos esportes regularmente para toda a vida. Que pratiquem atividade física por toda a vida, pois é prevenção de doenças. E certamente a função social e educativa do esporte não pode ser desprezada, ele é busca pela superação e excelência, ensina o valor da união em uma equipe e do treino e da autocrítica, é reflexo da sociedade que se vive, é competição, mas é saber perder e respeitar o adversário. Promove o brincar, se mexer e se esforçar para atingir a melhor performance possível, coisas que precisamos. É emocionante, e precisa da criatividade e força de vontade com uma coisa que é a mais básica de todo ser humano: o corpo. Enfim, não adianta ficar listando, quem pratica sabe que é bom e faz bem. Nesse sentido, criar uma política que contemple o esporte nas escolas – aí incluídos jogos, dança, ginástica e lutas como meios e conteúdos complementares. Torneios interescolares e festivais visando não puramente a descobrir talentos, mas a formar interessados no esporte, colocando-os para praticar com alunos de outros escolas, possivelmente sorteando os participantes dos times proporcionando a união entre desconhecidos, congregando. Aulas com modalidades novas, em cenários diferentes, em ambientes internos e externos, em contato com a natureza. O aluno que voltar ou permanecer a apreciar a cultura corporal do movimento – porque todos já apreciaram alguma vez – vai gostar de algum esporte, e poderá experimentar nos torneios interescolares e possivelmente se dedicar a eles competitivamente. A última etapa, o alto rendimento, é mantida também pela força com que consegue despertar noutras pessoas o desejo de acompanhar, de assistir, de apreciar estética, técnica e taticamente, de ter um senso de pertencimento a uma comunidade representada por um atleta, um time. É aí que é importante também a cultura do esporte na sociedade, que começa nas aulas de educação física. O aluno que compreender as várias modalidades será também participante como apreciador da “cultura corporal do movimento” dos outros, não apenas da sua. Cultura corporal do movimento é como um professor que tive chama o objeto de estudo da educação física. O esporte fica então enraizado, pode virar fenômeno de massa de teoria e prática, com a Copa (reafirmando o Brasil como lugar ótimo para o futebol, onde as distinções sociais terminam) e os Jogos (importantes para impedir a monocultura do mesmo futebol). Prova disso seria estender a revolução do esporte na educação ao terceiro grau, onde se concentram os jovens adultos e onde muitos deixam de praticar esporte, principalmente os que seguiram carreiras pensando na remuneração. Há que oferecer instalações, grupos e eventos para que sigam praticando pelo lazer, prazer e saúde. Soa inusitado na atual realidade, mas assim como conteúdos teóricos de arte, sociologia e filosofia deveriam ser tão fundamentais quanto os tradicionais para o ingresso na universidade, de esporte também. O esporte passa a fazer parte do imaginário coletivo, se fazendo presente, é quando há esporte na faculdade, com campeonatos longos e organizados e equipes universitárias formadas por estudantes, possivelmente ganhando bolsas sim, mas bolsas de mérito esportivo que só são oferecidas se atingido também o mérito escolar. Campeonatos regionalizados, que no final integrem também as regiões com presença menor do esporte em finais. Que se aproveite a regra do novo vestibular de se escolher várias opções de faculdade, numa possibilidade de intercâmbio que só fortalece características brasileiras que são a miscigenação e adaptação. Apenas a possibilidade de se levar ao mesmo tempo dedicação aos estudos e ao esporte (ou à cultura corporal do movimento) em um País é mostra de perceber algo que devia ser óbvio: ambos são essenciais, de essência mesmo, corpo e mente, e somados dão muito mais que a simples soma. São sete anos e acho que dá tempo de promover, desenvolver e popularizar o esporte “como nunca antes nesse País”, como diz o presidente. De, pelo menos, dar as primeiras braçadas, os primeiros passos, os primeiros saltos. Cristiano Hoppe Navarro, recém-formado em Educação Física
Escrito por Cristiano Hoppe Navarro às 21h57
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2 graus
Mais importante que toda essa discussão política aí do post debaixo, é o encontro de Copenhague. Não o de daqui a pouco que confrontará membros do LOA - Lula, pelo Rio e Obama, por Chicago - mas o de 7 a 18 de dezembro. Atendendo por mais uma sigla - COP-15 -, será mais fundamental que a Assembleia da ONU para todos nós, decidindo medidas práticas para manter o aumento do clima em até dois graus centígrados, já que passando disso ninguém pode duvidar de nada, mostra www.notstupid.org. E pensar que aqui hoje, da manhã a noite, a temperatura variou uns dez graus. Imagine, são só dois. Links www.planetasustentavel.abril.com.br www.myfootprint.org www.notstupid.org www.climatecrisis.net www.climateprotect.org www.breathingearth.net No mundo 60 nasceram, 15 morreram e emitiu-se 8000 toneladas de CO² (11; 6 e 3125 só na China) – se você levou 20s lendo esta frase. Filmes "Uma Verdade Inconveniente" "A Última Hora" "A Era da Estupidez"  
Gráficos do IPCC CO² liberado no mundo em %: 26 pra energia; 19 indústria; 17 desmatamento; 14 agricultura; 13 transporte; 8 prédios; 3 água (e seu desperdício).
Escrito por Cristiano Hoppe Navarro às 01h26
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